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:: Empresas “ecológicas” ganham espaço
O Estado do Paraná :: 11/03/2007 ::

Alto custo e sem retorno financeiro aparente. Num primeiro momento, assim, é possível descrever o investimento em tecnologias para dar o destino correto aos resíduos industriais. Mas, apesar de ser uma tecnologia cara, muitas empresas estão buscando se adequar ambientalmente, tornando-se “ecológicas” e visando benefícios futuros. Além da consciência ecológica, evitar multas ambientais, conseguir certificações e até novos clientes, que exigem uma atitude ambiental correta, são os principais motivos desse investimento.

“Muitos empresários nos procuram para pedir ajuda na elaboração de projetos ambientais. Muitos querem também consultoria para conseguir a ISO 14.000, que é dada às empresas que têm boa gestão ambiental", explicou o gerente do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai)/Unidade CIC, órgão ligado à Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Humberto Eissako Oshima. O Senai mantém o Centro de Tecnologia em Meio Ambiente para dar apoio às indústrias que querem investir na área.

Além de auxiliar nos projetos, o centro criou uma bolsa de reciclagem para que os empresários cadastrem o tipo de resíduo que geram, deixando a informação disponível para as indústrias que usam esse material como matéria-prima. “Essa é uma forma de otimizar a vida útil dos produtos", explicou Oshima. A bolsa tem hoje 4,5 mil empresas cadastradas em todo o Brasil e conta com cerca de 5 mil acessos por mês.

O Centro de Tecnologia, além de auxiliar as indústrias na elaboração de projetos, firmou um convênio com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) para intermediar a regularização ambiental. Oshima explicou que muitas não colocam a questão ambiental em dia porque têm medo de chamar a Sema para fiscalizar e se auto-denunciar. "Nós indicamos quais os passos necessários e emitimos um laudo para que a empresa possa se regularizar", explicou.

 

Preocupação crescente

A preocupação com o meio ambiente entre os empresários é cada vez maior. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pelo professor da Fundação Dom Cabral (escola especializada no desenvolvimento de executivos, empresários e empresas), Cláudio Boechat. "Nossa pesquisa procurou ver como as empresas estão se posicionando diante de 31 temas que preocupam a sociedade brasileira e que são chamados de desafios de sustentabilidade”, explicou o professor.

Os temas ligados à área ambiental pesquisados pelo professor são a água, a energia, serviços ambientais (capacidade da natureza processar as conseqüências da atividade humana, reciclagem e biodiversidade e mudanças climáticas. "Verificamos que as empresas estão se dizendo muito comprometidas, principalmente com a energia, que é o que mais impacta, principalmente nas indústrias", explicou Boechat.

Segundo o professor, o tema mudanças climáticas apareceu em 18.º na lista, o que "é preocupante”. “Isso significa que estas empresas não conseguem fazer relação disso com seus negócios. É um problema porque as mudanças climáticas vão afetar a vida da sociedade e isso quer dizer risco e impacta os negócios”, afirmou. "E as empresas podem ser parte da causa das mudanças climáticas, assim como pode ser a solução do problema”, completou.

 

Reaproveitamento do começo ao fim

O empresário Marcos Antônio Dalcini, da Ambiental Santos, utiliza o óleo vegetal, que na maioria das vezes, depois de usado, vai para o meio ambiente como matéria-prima. Depois de reciclar todo esse material, Dalcini revende para indústrias gráficas, madeireiras e até empreiteiras. No procedimento destas empresas o óleo se dissolve e migra com o processo produtivo. Entretanto, apesar de estar dando destino a um resíduo poluente, Dalcini se deparou com as sobras da reciclagem e teve que buscar uma solução para isso.

"O óleo vem contaminado com resíduos de alimentos e água. Por isso precisamos encontrar uma destinação para esse material”, contou. E a solução dada por Dalcini não foi barata, mas compensadora para o meio ambiente. O empresário montou uma estação de tratamento de água e com isso reaproveita toda água misturada ao óleo na sua produção. “Nós usamos para lavar o óleo quando ele chega aqui”, contou. Além da economia de água, Dalcini destina os resíduos de alimentos aos suinocultores.

A empresa ainda fica com o lodo, que é utilizado como adubo orgânico, e com as cinzas das caldeiras, que é usada como adubo orgânico para os vinicultores. “Nós incineramos também os suportes de madeira da Cimento Rio Branco. Com isso resolvemos o problema de resíduos deles e o nosso de geração de energia. E os pregos devolvemos para que uma indústria do ramo aproveite”, contou. “Temos tudo encaixado porque é muito importante destinar os resíduos”, ponderou Dalcini.

A Ambiental Santos existe há dez anos e Dalcini prevê lucro pela primeira vez somente no ano que vem. "Trabalhava fora para colocar dinheiro aqui. Não tem como crescer sem investir”, explicou.

O empresário montou também uma pequena indústria de detergentes e compra materiais de limpeza de terceiros para incentivar os pequenos comércios a doar o óleo usado. "Em vez de comprar o óleo nós trocamos pelos produtos”, contou. Buscando otimizar os custos, a empresa também fabrica os caminhões que usa para buscar o óleo no comércio. (AB)

 

Negócio para atrair clientes

Tratar a água antes de mandá-la para a rede fluvial e dar o destino correto aos resíduos. Os dois procedimentos não são baratos, mas a indústria de insumos para gráficas Quimagraf optou pela regularização para, além de proteger o meio ambiente, atrair grandes clientes. “Os clientes de grande porte exigem nosso projeto de destinação de resíduos ambientais antes de pedir o orça-mento”, contou o proprietário, Nelson Pessuti Júnior.

A empresa de produtos químicos montou a estação de tratamento de água e repassa o lodo para uma empresa que dá o destino correto há dois anos. "Antes nosso sistema não era tão eficiente”, contou. Segundo o proprietário, estes são requisitos também para a renovação de licença ambiental. Mas Pessuti Júnior explica que é caro implantar o processo. "Para as empresas menores é mais difícil", salientou. O empresário investiu cerca de R$ 25 mil só na estação de tratamento de água.

Agora a empresa está construindo uma estação de captação de água da chuva para evitar o gasto com a lavagem dos equipamentos. (AB)

 

Iniciativas ajudam a despoluir meio ambiente

“Colocamos a estação de tratamento de água para funcionar em outubro de 2004 e fomos aprendendo com os erros até março de 2005", contou o proprietário da transportadora Transtupi, Luiz Ben-Hur. O empresário montou uma estação para reaproveitar os cerca de 20 mil litros de água que gasta por dia com a lavagem dos ônibus da empresa e dos equipamentos internos dos veículos. Esta água é usada por uma semana. Cálculos do empresário mostram que com a estação já foi possível economizar 6 milhões de litros, só em 2006.

Na Transtupi toda água usada para a lavagem dos veículos e da lavanderia volta para o circuito interno de captação e é tratada para ser usada no dia seguinte. Este processo vai de segunda-feira a sexta-feira. “No começo tentamos reutilizar a água por um mês. Mas daí, por causa do excesso de resíduos começou a comprometer os vidros e a pintura dos ônibus", explicou a técnica em segurança do trabalho da empresa, Eliete Aparecida Stabach.

No último dia da semana, a empresa trata a água novamente e joga no córrego que passa ao lado. Como a água descartada é limpa, a iniciativa ajuda a despoluir o pequeno rio. "Como não há rede de esgoto, as residências da região despejam no córrego. Então a nossa água ajuda a eliminar estes resíduos”, explica o empresário. “Nós sempre fazemos testes para ver se a água está adequada para ir para o meio ambiente", garantiu Eliete.

Um sistema de captação da água da chuva também ajuda na economia do uso de água tratada. "Com tudo isso deixamos de usar 70% da água da Sanepar", contou a técnica. O custo - beneficio do sistema é apenas não poluir o meio ambiente porque, explicou Eliete, a economia com o gasto de água não cobre o custo do sistema. "A proporção de gasto é a mesma porque os produtos que usamos no tratamento da água cobrem o que economizamos com as contas de água”, afirmou.

A empresa também precisa dar destinação ao lodo e ao óleo que o tratamento da água gera. "Enviamos o lodo para uma central de tratamento de resíduos industriais e o óleo para o refino”, afirmou Eliete. O investimento da empresa na estação foi de R$ 75 mil e o custo para enviar o restante do material também é alto.

"Implantar um sistema assim ainda não é diferencial no mercado, mas achamos que um dia vai ser. Mas nós realizamos um serviço em beneficio da sociedade e minimizamos os efeitos que são intrínsecos da nossa atividade”, afirmou o empresário. (AB)

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